©
20 e muitos anos comendo batatinha dentro do x-salada sem alface.

Se você se esquecer de pagar a conta de luz e a gente tiver que se enxergar no escuro, com dois pares de olhos de gato, desacostumados a andar no breu, eu viveria de tato. Mesmo que no fim do dia não tenha nada pra gente comer na geladeira e eu tenha me atrasado, prometido ligar e desligado, ter te deixado esperando na porta do cinema por causa do trânsito e não ter molhado suas lavandas no meio da semana, eu juro que vou tentar não gritar alto.

Mesmo que eu  falando alto e atrapalhando o som das coisas que você ouve, esbravejando contra o seu jeito insistente de me dizer coisas que eu não sei ouvir, enrolando o tempo todo pra levar o lixo pra fora ou pra dizer que te amo, eu dormiria aqui. Na sala mesmo, pra te dar uns momentos de paz a sós e perceber que tu faz falta, minha amoura. Que a gente cai nessa roda viva do dia a dia e se esquece de que ficou porque ama, porque sabia que ia ser assim, mas fere. Fere o outro porque é costume de toda essa gente ferir quem se ama. É porque a gente não trava a língua com quem ama – pra bem e pra mal. E eu não travo nada, mas deveria. Deveria segurar as coisas, contar até dez e me lembrar que pra todo estresse do dia, pra todo problema que surge, pra tudo de ruim que der na telha ou nas infiltrações, a gente tá junto.

Mesmo que a gente bata as portas com violência e diga umas besteiras-adagas, feitas pra machucar e arranhar a pele do outro, eu te juro que não iria embora. A gente daria meia-volta quando chegasse ao térreo ou pararia o carro na entrada da garagem esperando o outro gritar pra ficar (e mesmo sem grito voltaria pedindo desculpas). Mesmo que algo parecesse acabar e cavar um buraco entre a gente repelindo cada um prum lado, fazendo com que você não quisesse mais ouvir minha voz ou dormir comigo, tirando a graça das minhas piadas e trazendo bolsas pros meus olhos, eu ficaria. Mesmo que a gente trabalhe até tarde, durma fora alguns dias por causa das viagens, esqueça a comida da cachorra, deixe a torneira ligada e inunde a nossa cozinha inteira, mesmo que tudo pareça dar errado e a gente chegue num ponto em que não se suporte mais, eu vou lembrar do exato momento em que pus os olhos em você.

Mesmo com a falta, com a toalha molhada, com a tampa do vaso levantada, com os berros, as crises, a TPM, seus pais, minhas tias, a falta de atenção ou o prato na pia, a camisa no sofá, as nossas manias irritantes e as escovas de dentes trocadas, mesmo que falte papel higiênico no banheiro e todas essas coisas que dão vontade de desistir da gente, eu não poderia. E mesmo que você me expulsasse, me pusesse pra fora de mala, cuia e sem cobertor, eu te beijaria e voltaria pra dormir do seu lado, apagar a luz e te buscar no tato, desse meu modo nada romântico, ultrapassado e ogrodoce de dizer que eu ainda vou te amar – mesmo com tudo isso – amanhã de manhã.

Te amo!

Eu não ligo para o amor, ligo para o que a gente faz dele.

Ter amor é muito fácil, é só se apaixonar em um café, em uma balada, em um aplicativo, em uma rede social. É só se envolver por meia dúzia de fotos e palavras trocadas. É fácil ter amor, difícil é saber o que fazer com ele. E isso a gente faz bem, muito bem.

A sinergia faz com que nos amemos mais. Dormir juntos e sentir o prazer de ter o corpo abraçado a noite inteira, até que a gente deixe de ser conchinha para se tornar pérola. Acordar no meio da noite e me deparar na cama com você é como ter a certeza de que escolhi o colchão e travesseiro perfeitos.

Quando estamos longe, não é a distância que incomoda, é a falta. A falta de te ter por perto, ainda que seja para cada ficar na sua, sem trocar palavras, nem olhares, só energia. E até o próximo encontro, nos acostumamos a conviver com a falta, pois sabemos que não vai faltar “a gente” quando o dia de ficarmos chegar.

Quando estamos juntos, temos muito mais do que amor. Temos motivos para amar.

Te amo!

- Gá, sabe qual é sua melhor qualidade?

-Você cumprimenta com abraços.



Read More